Luísa Sonza canta emoções reais ao longo de álbum que mixa samba, sertanejo, Rita Lee, R&B e bossa nova



Há emoções reais ao longo do terceiro álbum de Luísa Sonza, Escândalo íntimo, lançado na noite de ontem, 29 de agosto. A cantora e compositora até incursiona por ritmos do momento, mas sem seguir fórmulas nas músicas e sobretudo nas letras.

Sucessor de Doce 22 (2021) na discografia da artista, Escândalo íntimo é álbum longo que totaliza 24 faixas, sendo que seis estão bloqueadas para serem lançadas futuramente em edição deluxe.

Por seguir narrativa estruturada em quatro blocos (paixão, amor, decepção e superação) que contam a história de relacionamento afetivo, e sobretudo por ter sido pautado pela diversidade rítmica, o disco consegue sustentar o interesse do ouvinte nas 18 faixas disponíveis, ainda que haja naturais oscilações no inédito repertório autoral do álbum.

Porque é interessante ouvir Sonza dar voz a uma canção com o espírito da bossa nova, Chico (Bruno Caliman, Carolzinha, Douglas Moda, Jeni Mosello e Luísa Sonza), cuja letra inclui versos românticos – “Chico, se tu me quiseres / Sou dessas mulheres de se apaixonar / Pode fazer a sua fumaça / O bar da cachaça / Vai ser nosso lar / E, Chico, se tu me quiseres / Debato política, tomo o teu partido / E se for pra repartir o amor / Que reparta comigo” – dirigidos ao atual namorado da artista, Chico Veiga, mas alusivos a outro Chico, o Buarque, para quem conhece a letra do bolero Folhetim (1978).

Sem pudores, Luísa Sonza fez álbum movido a amor e sexo. Se há romantismo na confessional canção Iguaria (Luísa Sonza, Carolzinha, Douglas Moda, Jahnei Clarke, Jenni Mosello, Mason Sacks, Roy Lenzo e TK Kayembe), a já conhecida Campo de morango (Luísa Sonza, Carolzinha, Douglas Moda, Jahnei Clarke, Jenni Mosello, Lucas Vaz, Mason Sacks e Roy Lenzo) – faixa lançada em 15 de agosto como primeiro single do álbum – explicita o sexo a ponto de ter desagradado público conservador que ainda se choca quando uma mulher fala do prazer do corpo.

Aberto com o orquestral e climático tema instrumental que dá nome ao disco, Escândalo íntimo (Beto Ruschel e Hareton Salvanini), o álbum combina referências díspares. Se Surreal (Ariana Wong, Baco Exu do Blues, Carolzinha, Douglas Moda, Jahnei Clarke, Jenni Mosello, Luísa Sonza, Roy Lenzo, TK Kayembe e Yehonatan Aspril) é sensual R&B cantado por Sonza com o rapper Baco Exu do Blues, Onde é que deu errado? (Aisha, André Jordão, Bruno Caliman, Dan Ferreira, Dougas Moda, Luíza Sonza) ecoa a alma intensa da canção sertaneja abolerada e poderia figurar em disco de Marília Mendonça (1995 – 2021).

A faixa tem toque de sanfona e letra em que Sonza se expõe frágil, vulnerável diante da paixão (outra música, esta ainda bloqueada, Bêbada favorita, também incursiona pelo universo sertanejo com toque de samba e a participação da dupla Maiara & Maraisa).

Luísa manequim (Abílio Manoel, Asa Taccone, Carolzinha, Cole M.G.N., Greif Neill, Douglas Moda, Jenni Mosello e Luísa Sonza) surpreende ainda mais ao cair no suingue do samba-rock quando a faixa é entrecortada por samples da gravação original de 1972 de outra música intitulada Luísa manequim e cantada por Abílio Manoel (1947 – 2010), artista português que residia no Brasil.

Já Lança menina (Carolzinha, Douglas Moda, Jahnei Clarke, Jenni Mosello, Luísa Sonza, Mason Sacks, Roy Lenzo, TK Kayembe e Yehonatan Aspril) se apropria do refrão de Lança perfume (1980) – sucesso de Rita Lee (1947 – 2023), devidamente creditada como coautora da faixa ao lado de Roberto de Carvalho – para fazer a festa no bloco final do disco.

Nesse bloco da superação, entra o dueto de Sonza e Duda Beat em Ana Maria (Roy Lenzo, Douglas Moda, Mason Sacks, Jahnei Clarke e Yehonatan Aspril, o Yoni) em narrativa finalizada com a ainda indisponível abordagem de música de Caetano Veloso, You don't know me (1972), lançada pelo autor no cultuado álbum Transa (1972).

Entre feats. com Marina Sena na sensual balada Romance em cena (Carolzinha, Lucas Vaz, Nave Beatz, Jenni Mosello, Luísa Sonza, Marina Sena e Iuri Rio Branco) e com a norte-americana Demi Lovato, que canta em português a parte que lhe cabe na letra da densa balada Penhasco 2 (Luísa Sonza, Demi Lovato, Douglas Moda, Roy Lenzo, Papatinho, Carol Biazin, Carolzinha, Jenni Mosello e Day Limns), Luísa Sonza deixa a impressão de estar lançando álbum duplo, tal a sensação de o disco ser longo, ainda que as 18 faixas liberadas totalizem 45 minutos que alternam sensualidade e melancolia.

Orquestrada por Douglas Moda (colaborador da artista no álbum anterior Doce 22) com Roy Lenzo e Tommy Brown, a produção musical conseguiu dar unidade ao disco, que começa com os beats acelerados de faixas como A dona aranha (Carolzinha, Douglas Moda, Luísa Sonza, Jenni Mosello, Marquez Parker, Njomza Vitia, Tommy Brown e Xavi), acalma a partir do bloco B e depois volta a ficar animado, como se as faixas traduzissem o vaivém incessante da paixão.

Há músicas ainda importantes a serem reveladas, como a canção em espanhol La muerte e Sagrado profano (gravada com a adesão do trapper KayBlack), mas, a julgar pelas 18 faixas, Luísa Sonza mostra evolução em Escândalo íntimo, disco com sentimentos verdadeiros sobre amor e sexo.

Fonte: G1